Diretores descobrem o MMA, esporte que caiu nas graças do público brasileiro, e levam os ídolos e anônimos dos ringues para as telas
Plantão | Publicada em 12/07/2011 às 00h26m
Mauro Ventura
RIO - Cinema é uma luta, como bem sabem produtores e diretores, às voltas com as dificuldades para produzir e distribuir um filme no Brasil. Mas, de uns tempos para cá, é também outra luta: o MMA, ou Mixed Martial Arts, esporte que caiu nas graças do público brasileiro e, consequentemente, dos cineastas.
Há filmes de todo tipo: documentários ou de ficção; abordando lutadores célebres ou anônimos; priorizando as lutas ou os dramas familiares. Alguns dos principais ídolos do esporte estão saltando da arena para as telas. Anderson Silva, maior lutador de MMA de todos os tempos, tem sua vida retratada no documentário "Like water", prêmio de melhor direção no último Festival de Tribeca, em abril. Rodrigo Minotauro terá sua trajetória apresentada em "Minotauro, a vida do lendário lutador Antônio Rodrigo Nogueira". A biografia de José Aldo, campeão da categoria peso-pena do UFC (Ultimate Fighting Championship) inspira uma obra de ficção. E "Os Gracie e o nascimento do vale-tudo" apresenta a família mais importante de jiu-jítsu do mundo.
Goldman fará filme sobre amizade
Os lutadores desconhecidos aparecem em "Rinha", produção ficcional que aborda o submundo das apostas em lutas em São Paulo, e em "Dias de luta", documentário que mostra o universo das lutas de vale-tudo nas favelas cariocas.
Entre os dois extremos está o lutador Fábio Leão, preso quatro vezes por uma série de crimes. Graças ao apoio de uma juíza, ele se redimiu, dá aulas numa academia, participa de competições e acumula títulos de campeão carioca e brasileiro. Sua vida está inspirando um filme de ficção, de Paulo Thiago. E, por fim, o diretor Henrique Goldman, de "Jean Charles", falará da amizade entre um jovem lutador de MMA e seu treinador. Com título provisório de "O cara", a história terá elenco brasileiro e americano, locações em São Paulo e nos Estados Unidos, roteiro do próprio Goldman e de Thiago Dottori, e produção da britânica Mango Films.
A popularidade da luta também atraiu a atenção de Aguinaldo Silva, autor da próxima novela das nove, "Fina estampa". O plano original era que um dos personagens fosse um jogador de futebol, mas ele mudou por achar batido. A ideia de Aguinaldo é fugir ao lugar comum:
- Os lutadores têm todos o mesmo estereótipo, uma espécie de forma à qual todos se adaptam. O que me interessa fazer na novela é quebrar essa capa e chegar ao ser humano que, no fim de contas, todos somos. Inclusive os campeões de Ultimate Fighting.
É uma forma de ascensão social, como o futebol. O cara da periferia pode virar campeão
Diretores e produtores elencam as mesmas razões para suas escolhas: são histórias de superação, com capacidade de atingir um público variado, sobre um tema que cresce exponencialmente no Brasil.
- Está virando um tema brasileiro, atingindo a sociedade de forma vertical. Os maiores lutadores do mundo são daqui - diz Gláucia Camargos, produtora do filme baseado em Fábio Leão. - É uma forma de ascensão social, como o futebol. O cara da periferia pode virar campeão. O filme tem tudo para ser um blockbuster.
- Ele alcançou a cidadania através da luta - reforça Paulo Thiago, diretor do filme, que está escrevendo o roteiro com Júlio Ludemir, para ser filmado ano que vem. - É o nosso "Fábio, um brasileiro".
- A luta nos octógonos é a metáfora da luta do homem para se afirmar no mundo, para sobreviver e para ser amado - compara Goldman.
- É uma violência que salva. Eles canalizam a energia para um caminho saudável. São heróis em suas comunidades - observa Eduardo Brand, diretor de "Dias de luta".
- Ele tem um passado humilde, era de Manaus, queria ser jogador de futebol, passou fome, morou na favela e hoje é campeão mundial - explica a escolha Caco Souza, produtor do filme inspirado em José Aldo, que será dirigido por Afonso Poyart. - É um esporte que tem crescido muito. Tem um público cativo, e tem mulheres entusiastas.
A produtora deles, a Black Maria, foi convidada pela Paris Filmes, que, de olho no filão, sugeriu: "Por que não fazem um projeto de MMA"? Os planos são de filmar no início de 2012, para lançar no segundo semestre. O ator ainda não está escolhido, mas, se dependesse do próprio Aldo, seria Malvino Salvador.
- Virar filme é muito mais do que eu sonhei ou esperava. Espero que minha história sirva de exemplo - diz o lutador.
Entre o crime e o exemplo
Quem também torce para que sua trajetória inspire outras pessoas é Fábio Leão, apropriadamente conhecido como Da Selva, que passou dez anos na cadeia.
O filme vai ser bom para as pessoas verem que, quando um ex-presidiário chega para pedir emprego, é porque realmente se cansou do crime
- Minha vida sempre foi entre o crime e o ringue. Fui viciado em drogas por 15 anos, pertenci ao alto escalão de uma facção criminosa, tenho bala alojada no corpo, estive preso quatro vezes. Nas vezes que saí, procurei emprego e não consegui, por ser ex-presidiário. Até que o diretor da cadeia me deixou dar aulas na prisão. Uma das juízas que me condenaram viu o trabalho e acreditou em mim. O filme vai ser bom para as pessoas verem que, quando um ex-presidiário chega para pedir emprego, é porque realmente se cansou do crime.
Ele dá aulas hoje na Academia Delfim, na Tijuca, de kickboxing e muay thai. E ainda ensina na prisão, numa academia montada por Minotouro (irmão de Minotauro). Aos 36 anos, continua lutando.
- Lutei esses dias no Espírito Santo. Estou treinando chão (jiu-jítsu) agora, para até o fim do ano entrar num evento de MMA.
O clã mais conhecido do mundo da luta também saiu do octógono para o celuloide, pelas lentes de Victor Cesar Bota. Mais que as lutas, a ênfase é nos integrantes, como Carlos, Helio, Carlson, Rolls, Rorion, Royce, Renzo e Rickson, e nos assuntos familiares. "Os Gracie e o nascimento do vale tudo" foi exibido no Festival do Rio de 2009, mas ainda não foi lançado comercialmente. Não ficam de fora os conflitos internos. Cesar Bota, que não sabia nada de jiu-jítsu, quis apresentar os Gracie e o que fizeram para um público não familiarizado com o tema.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/07/11/diretores-descobrem-mma-esporte-que-caiu-nas-gracas-do-publico-brasileiro-levam-os-idolos-anonimos-dos-ringues-para-as-telas-924877618.asp#ixzz1Rsu2tQeP
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